Eu dei todo meu tempo para escrever em páginas e mais páginas. Escrevi nos rodapés, nas entrelinhas, nas bordas de cada folha. Nenhum lugar ficou em branco. Coloquei as palavras bem próximas, quase sobrepostas, só para nosso livro durar mais. E em todo ponto que você colocou, eu puxei uma vírgula. Nunca quis o fim. Nunca o aceitei. Escrevi até onde não deveria. E quando a tinta acabou eu usei meu próprio sangue, pus minha alma naquelas letras. Cada termo foi pensado, e cada passagem meticulosamente calculada, a métrica contida soava como os batimentos do meu coração, inventei vocábulos só pra sair do marasmo de meu perfeccionismo. Nesse exagero de sentimento, eu acabei escrevendo até na capa, e aí você simplesmente não suportou, pôs um ponto bem grande, que ocupou um espaço enorme e dessa vez eu percebi que não havia lugar para reticências, ou outros signos. Era aquilo e fim. Guardei esse livro na estante mais velha e empoeirada do meu quarto, na última prateleira, bem lá no alto, mas não como um troféu, sim como algo que não quero tocar, pelo menos não por enquanto. Talvez um dia eu o leia, percebo o quanto fui tola e o queimo totalmente, ou talvez cometa o mesmo erro, novamente.