Já estava tarde quando Ela abrira a geladeira, mas o desejo de comer doce não tem hora. Boca salivando, olhos entreabertos e pés descalços. Passou o olhar pelas prateleiras: mostarda, arroz, lasanha, "cadê?", vidro de tempero, "o que isso tá fazendo aqui?", brigadeiro. "Achei". Ela estendeu a mão para a vasilha de brigadeiro, mas percebeu o bolo de chocolate escondido entre duas panelas, parecia bom. Impasse. E se comesse o bolo, porém, na verdade, quisesse o brigadeiro e vice-versa? E se no lugar dessas comidas houvesse duas pessoas e ela tivesse que escolher entre um Guilherme e um Marlus? Ou melhor, dois empregos, dois países para morar. "Sabe o que é pior de poder escolher? O próprio fato de poder escolher". E se ela escolhesse Marlus, casasse com ele, depois de sete anos olhasse para si mesma no espelho e pensasse que havia feito a escolha errada e que sempre amou Guilherme? Se escolhesse o batom vermelho ao invés do coral? Ela viveria o resto de seus dias com o fardo da escolha errada. Pior ainda, se as escolhas definem quem somos e nós escolhemos errado, então nos tornamos errados, não é mesmo? Depois da epifania do dia anterior passou a ser assim, condenada a liberdade. "Maldita liberdade" e com ela veio a náusea de ser responsável por seus atos, pois não podia culpar Deus, o governo ou o aquecimento global pelas mazelas em sua vida. A barriga roncou, mas o estômago estava enjoado."Dane-se". Pegou o bolo, cortou em pedaços e jogou na vasilha de brigadeiro, fazendo uma mistura com um gosto um pouco peculiar, gosto de liberdade.
