sábado, 22 de março de 2014

Urbanização



Eu poderia andar até o fim dessa rua, só pra esquecer um pouco disso tudo. Só pra observar o vento varrer as nuvens da lua e fazer com que seus raios penetrem minha pele, para que assim possa refletir alguma luz. Eu poderia caminhar pelas alamedas da cidade, não me importaria com o ar gélido que ricochetearia meu corpo, pois nesse momento nada mais pode me flagelar. É purificação. Somente deixar a pior parte de mim esvair pelos bueiros, juntamente com as preocupações que fazem meus olhos transbordarem e completar meu vazio com as luzes e os sons dessa cidade.

Ela



Ela me olha através de uma taça cheia de vinho, como se quisesse esconder algum coisa. Nossos olhos mantiveram um estranho contato intenso por meio segundo, eles se abraçaram como se fossem velhos conhecidos. Suas sobrancelhas estão em uma postura desafiante enquanto o sorriso me é convidativo. Ela é um paradoxo ambulante. Por um momento estou só com ela em uma sala fechada para o mundo, aberta para nós. Qual será sua voz? Minha mente cria inúmeras melodias e eu decido qual deve se encaixar melhor. Em qual língua ela fala? Francês? Ela tem cara de quem fala francês. Ela vira seu rosto todo para mim, agora seu corpo, seus pés andam em minha direção. E voltamos para um lugar só nosso, consequentemente eu estou a encarando, mas não me importo, pois só ela pode ver. Com um pé milimetradamente a frente do outro, seguindo a reta que une nossos dois pontos, ela balança os dedos que seguram a taça, tocando as unhas no vidro, fazendo um barulho que não consigo ouvir, mas sei que fazem. Quando se trata dela eu só sei, eu só sei de sua beleza, não sei explicar o motivo. Ela é um dogma incrustado de diamantes no pescoço com um vestido vermelho justo no corpo. Ela não abaixa o rosto para andar, ela sabe o que quer, sabe onde quer chegar e pelo visto no caminho para seu destino ela cruzará comigo, ou seu destino sou eu.

In verno



Está chovendo aqui dentro.
Uma tempestade de desilusões
Caem em forma de gotículas de água,
Sólidas e pesadas.

Faz frio aqui dentro,
Por isso estou debaixo desse cobertor,
Sentindo a chuva pingar dos meus olhos.

Está escuro aqui dentro.
Então eu ligo o interruptor
E continua escuro aqui dentro.

O céu está tempestuoso aqui dentro,
Mas lá fora,
Lá fora faz calor.
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