terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Angústia (Epifania II)


Já estava tarde quando Ela abrira a geladeira, mas o desejo de comer doce não tem hora. Boca salivando, olhos entreabertos e pés descalços. Passou o olhar pelas prateleiras: mostarda, arroz, lasanha, "cadê?", vidro de tempero, "o que isso tá fazendo aqui?", brigadeiro. "Achei". Ela estendeu a mão para a vasilha de brigadeiro, mas percebeu o bolo de chocolate escondido entre duas panelas, parecia bom. Impasse. E se comesse o bolo, porém, na verdade, quisesse o brigadeiro e vice-versa? E se no lugar dessas comidas houvesse duas pessoas e ela tivesse que escolher entre um Guilherme e um Marlus? Ou melhor, dois empregos, dois países para morar. "Sabe o que é pior de poder escolher? O próprio fato de poder escolher". E se ela escolhesse Marlus, casasse com ele, depois de sete anos olhasse para si mesma no espelho e pensasse que havia feito a escolha errada e que sempre amou Guilherme? Se escolhesse o batom vermelho ao invés do coral? Ela viveria o resto de seus dias com o fardo da escolha errada. Pior ainda, se as escolhas definem quem somos e nós escolhemos errado, então nos tornamos errados, não é mesmo? Depois da epifania do dia anterior passou a ser assim, condenada a liberdade. "Maldita liberdade" e com ela veio a náusea de ser responsável por seus atos, pois não podia culpar Deus, o governo ou o aquecimento global pelas mazelas em sua vida. A barriga roncou, mas o estômago estava enjoado."Dane-se". Pegou o bolo, cortou em pedaços e jogou na vasilha de brigadeiro, fazendo uma mistura com um gosto um pouco peculiar, gosto de liberdade.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Epifania


Ela olhou para o chão e viu a mecânica de suas pernas em uma caminhada: perna direita, perna esquerda, direita, esquerda, uma e depois a outra. De repente, esquerda, esquerda e chão. Caiu. Alguém viu? Ninguém. Ótimo. Continue. E continuou, limpou o joelho e continuou. Direita, esquerda e o que mais? Esqueceu como andava. Estava parada, olhando para suas pernas estáticas. E agora? "Continue" ela dizia para ela. Como? Direita, esquerda? Esquerda, direita? Olhou para o chão, uma planta, poucas folhas e uma flor, crescendo em meio as rachaduras da calçada. "Deve-se contornar os problemas, eles só lhe impedirão de fazer o que você quer, se você os permitir impedir." Linda filosofia, foi ela mesma quem desenvolveu, parecia Mahatma Gandhi, mas era ela, Ela, com letra maiúscula de nome próprio, de indivíduo, de ser. Ela só, parada e ao mesmo tempo movimentando, dentro da sua cabeça um milhão de perninhas estavam: direita, esquerda... 

Emicida e Pitty - Hoje cedo


sexta-feira, 3 de outubro de 2014

"Desculpa"

Eu acho que quando nós chegamos em alguém e pedimos perdão pelo que fizemos, nós também estamos dispostos a ouvir o que essa pessoa tem a dizer. Sendo assim, saiba que eu já te perdoei. Eu fiquei por um longo tempo pedindo a qualquer divindade existente que me concedesse a dádiva do perdão. Esta não é para aqueles que merecem, sim para os que precisam, e você precisa dela. Eu já consigo olhar para o teu rosto e não ter aquela ânsia de vômito, eu já não sinto ódio ou desprezo. Mas não seja tão ingênuo em acreditar que perdoar e esquecer são as mesmas coisas. Sempre quando escutar o teu nome ou ouvir tua voz eu me lembrarei do que me causou, lembrarei sem remorso, mas lembrarei. Pois de todas as pessoas que me machucaram nenhuma foi capaz de fazer um estrago tão grande quanto o que você fez. Você partiu meu coração. O que dói mais é saber que você esteve aqui como amigo este tempo todo. Uma apunhalada assim, eu esperaria dos meus inimigos, mas não de você, meu amigo. Assim, você se mostrou indigno da minha confiança. Você foi a maré alta que destruiu nosso castelo de areia. O castelo construído pouco a pouco, o castelo de admiração e sentimentos bons que eu nutria por você. Por fim, você se mostrou realmente como todos me disseram, infelizmente um dia eu fui capaz de defender o seu caráter quando estes todos duvidavam da tua integridade. Agora eu faço parte destes todos. Eu poderia querer vingança, mas não quero, pois teu maior castigo será viver o resto da tua vida sem me ver como eu realmente sou, sem desvendar um labirinto de medos e sonhos que escondo por trás de olhares.

domingo, 21 de setembro de 2014

Azul


Moço,
Não me olhe por essas janelas azuis.
Olhares azuis.
Olhos azuis
Que me veem,
Que me têm,
Que me veem a mente.
Azul do mar.
Azul do céu.
Azul do seu olhar,
Que não é mais seu.
É meu
O seu
O céu
O mar.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Eu já deveria saber que não iria dar certo, mas é que tudo isso aconteceu tão rápido que eu não pude pensar. Estava entorpecida, quem sabe ainda esteja. Eu acreditei demais, me apaixonei demais, me dei demais e recebi de menos. Mas o amor é uma troca? Você só ama quem merece ser amado ou quem te ama? Talvez o amor seja algo para os que necessitam não para os que merecem.  Nós pensamos tanto na reação que esquecemos do prazer de agir, desprezamos a simplicidade do sentimento, o complicamos como fazemos com o resto do mundo que nos rodeia, erramos ao tentar explicar sensações, pois elas são indescritíveis. Nós somos indescritíveis. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Arctic Monkeys - Do I wanna know?


Ms Mr - Hurricane




Os cadáveres que joguei no mar agora vieram à tona, todos eles. Que fazem a areia da minha ampulheta voltar para cima, discutindo com meus pensamentos como as leis físicas são frágeis dentro de uma mente como a que tenho. Os fantasmas das pessoas que já matei, presos na minha casa, dormindo na minha cama, usando meu chuveiro. Eu quem achava que a morte era o fim... É só início do céu para os que vão e do inferno para os que ficam.

Queda livre


A dor imensurável que se tem depois de apostar tudo em um jogo e perder, e ter que continuar, recomeçar. Dizer para si mesmo “vai melhorar” e tentar encontrar a paz no inferno. Assistindo seu fracasso em um replay. A dor imensurável que se tem depois de apostar tudo em um jogo e perder, e ter que continuar, recomeçar. Dizer para si mesmo “vai melhorar” e tentar encontrar a paz no inferno. Assistindo seu fracasso em um replay. Conquistar vitórias e as ver desmoronar repetidamente, assim como os castelos de areia em uma praia levados pela onda. Naquele momento em que você se encontra perdido, sozinho. Você sabe que a única pessoa que pode lhe ajudar é você mesmo. “Onde errei?” sua voz ecoa em sua própria mente tentando encontrar respostas. Se você soubesse ao menos isso, retornaria e faria diferente. Mas você não sabe, não é mesmo? Foi como se o azar houvesse te nocauteado, é tudo uma névoa obscura. Mas você não acredita em destino e essas coisas de sorte e azar, não é mesmo? Então o que aconteceu? Esse é o problema em ser um cético. Quando algo dá certo é mérito seu, mas quando dá errado, a culpa cai dura como uma pedra sobre seus ombros e você deve carregá-la, não há deuses ou criaturas místicas para atenuar o peso dos seus erros. E quando você está arrasado e pensa que é o fim, cai ainda mais, muito mais. Você está tão abaixo do fundo do poço, porém ainda continua caindo em queda livre. Há luz, mas não consegue vê-la. Tenta não se apavorar, não é tão fácil assim. Cadê sua determinação? Ela se perdeu em algum lugar dessa imensa escuridão. Eu sei que você quer levantar, mas não consegue. Eu sei que quer lutar, mas não tem forças.

sábado, 22 de março de 2014

Urbanização



Eu poderia andar até o fim dessa rua, só pra esquecer um pouco disso tudo. Só pra observar o vento varrer as nuvens da lua e fazer com que seus raios penetrem minha pele, para que assim possa refletir alguma luz. Eu poderia caminhar pelas alamedas da cidade, não me importaria com o ar gélido que ricochetearia meu corpo, pois nesse momento nada mais pode me flagelar. É purificação. Somente deixar a pior parte de mim esvair pelos bueiros, juntamente com as preocupações que fazem meus olhos transbordarem e completar meu vazio com as luzes e os sons dessa cidade.

Ela



Ela me olha através de uma taça cheia de vinho, como se quisesse esconder algum coisa. Nossos olhos mantiveram um estranho contato intenso por meio segundo, eles se abraçaram como se fossem velhos conhecidos. Suas sobrancelhas estão em uma postura desafiante enquanto o sorriso me é convidativo. Ela é um paradoxo ambulante. Por um momento estou só com ela em uma sala fechada para o mundo, aberta para nós. Qual será sua voz? Minha mente cria inúmeras melodias e eu decido qual deve se encaixar melhor. Em qual língua ela fala? Francês? Ela tem cara de quem fala francês. Ela vira seu rosto todo para mim, agora seu corpo, seus pés andam em minha direção. E voltamos para um lugar só nosso, consequentemente eu estou a encarando, mas não me importo, pois só ela pode ver. Com um pé milimetradamente a frente do outro, seguindo a reta que une nossos dois pontos, ela balança os dedos que seguram a taça, tocando as unhas no vidro, fazendo um barulho que não consigo ouvir, mas sei que fazem. Quando se trata dela eu só sei, eu só sei de sua beleza, não sei explicar o motivo. Ela é um dogma incrustado de diamantes no pescoço com um vestido vermelho justo no corpo. Ela não abaixa o rosto para andar, ela sabe o que quer, sabe onde quer chegar e pelo visto no caminho para seu destino ela cruzará comigo, ou seu destino sou eu.

In verno



Está chovendo aqui dentro.
Uma tempestade de desilusões
Caem em forma de gotículas de água,
Sólidas e pesadas.

Faz frio aqui dentro,
Por isso estou debaixo desse cobertor,
Sentindo a chuva pingar dos meus olhos.

Está escuro aqui dentro.
Então eu ligo o interruptor
E continua escuro aqui dentro.

O céu está tempestuoso aqui dentro,
Mas lá fora,
Lá fora faz calor.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Detonautas - Olhos certos


Esquizofrenia


Eu queria poder lhe escrever um poema, talvez lhe mandar uma carta, um e-mail, um simples "oi", te olhar nos olhos, ouvir sua voz, shakesperear palavras ao seu ouvido e ver seu sorriso. Ah! Seu sorriso, a parte mais linda de ti. Queria poder dar um motivo para você colocar esse sorriso no seu rosto. Um rosto inexistente, um sorriso que é uma miragem no meio do deserto árido que é minha mente. Você, meu amor, sempre foi minha fuga. A fuga dos problemas, a válvula de escape da minha vida. Como eu queria que você estivesse aqui, junto de mim, junto do real, mas como algo surreal se tornará real? Impossível eu sei, é impossível como Romeu e Julieta, mas eles deram um jeito, e nós? Nós daremos um jeito? Não, eu sei que não. Será que algum dia eu acharei você em alguém? Não, meu amor, não chore, eu não te esquecerei, pelo menos não pretendo, na verdade, eu pretendo por que o que tivemos foi uma ilusão, esse dito “amor” nunca existiu, mas nunca deixará de existir. Não dará certo entre nós, eu sou real, eu existo, e você não existe, a não ser para mim, a não ser para nós dois. Eu não quero te ver sofrer, mas não quero sofrer.
-Você sabe que é impossível. Impossível como o céu ser verde e a grama azul. 
-Mas me disseram que nada é impossível.
-Então somos nada, somos impossíveis. 
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